Cláudia
Mara Serafim Batiston
Resumo: A multa aplicada nos casos de quebra de contrato de
locação de imóveis urbanos deverá ser proporcional ao tempo que resta para dar cumprimento
ao contrato de locação.
Palavras chaves: multa; Lei do Inquilinato; quebra de contrato;
proporcionalidade.
A
lei que rege os contratos de locação de imóveis urbanos é a Lei n° 8.245/1991, a
chamada Lei do Inquilinato, com alterações feitas pela Lei n° 12.112/2009, e trata
dos detalhes que envolvem o referido negócio, como: prazo das locações,
fianças, sublocações, locações residenciais, comerciais etc.
A
multa por quebra de contrato, estipulada em casos de rescisão antecipada, é um dos
assuntos que mais gera conflito nas relações locatícias, está regulada pelo
art. 4° da referida lei:
Art.
4o Durante o prazo estipulado para a duração do
contrato, não poderá o locador reaver o imóvel alugado. O locatário,
todavia, poderá devolvê-lo, pagando a multa pactuada, proporcionalmente
ao período de cumprimento do contrato,
ou, na sua falta, a que for judicialmente estipulada.
Parágrafo único.
O locatário ficará dispensado da multa se a devolução do imóvel decorrer de
transferência, pelo seu empregador, privado ou público, para prestar serviços
em localidades diversas daquela do início do contrato, e se notificar, por
escrito, o locador com prazo de, no mínimo, trinta dias de antecedência.
Fica evidente
que a lei não determina percentual a ser aplicado, também não estipula que o
seja com base em um número de aluguéis e, muito menos, o prazo para que esta
multa seja computada. Deixando muitas vezes o locatário (inquilino) nas mãos
dos locadores (proprietários), ocorrendo na prática o verdadeiro enriquecimento
sem causa, porque eles esquecem que o comando judicial claramente menciona a
palavra “proporcionalmente”.
Como em toda
relação comercial, a locação de imóveis deve seguir parâmetros favoráveis aos
dois lados, procurando minimizar problemas futuros decorrentes dessa transação.
Se por um lado,
o locador tem o direito de ser protegido caso o locatário descumpra o contrato
– afinal o dinheiro do aluguel do imóvel é incorporado aos seus rendimentos –
por outro, o locatário não pode ser vinculado a um contrato que lhe gere
transtornos insuperáveis caso lhe advenha um fato inesperado.
O art. 4° autoriza a cobrança de multa em caso de rescisão
contratual antecipada, deixando que as partes convencionem como será cobrada
tal multa, mas o artigo é claro ao determinar expressamente que esta multa
deverá ser aplicada proporcionalmente ao período que resta para o término do
contrato.
O
Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo (Ibedec),
defende o que está expresso na lei: a referida multa deverá ser cobrada
proporcionalmente aos meses que faltarão para o encerramento do contrato.
Assim,
por exemplo, se as partes firmaram um contrato de locação de 12 meses, com
multa por descumprimento do contrato de três aluguéis pelos 12 meses, e ao
final de seis meses decide deixar o imóvel, deve-se aplicar a proporcionalidade,
com o pagamento de multa de um aluguel e meio pelo prazo que falta para cumprir
o contrato.
Por
outro lado, o Código Civil Brasileiro corrobora com o que está disposto no
artigo 4° da Lei do Inquilinato, e determina que haja um equilíbrio na relação
estabelecida entre as partes, assim, a multa deverá ser proporcional ao tempo
que resta para o inquilino permanecer no imóvel:
Art.
413. A penalidade deve ser reduzida eqüitativamente pelo juiz se a
obrigação principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da
penalidade for manifestamente excessivo, tendo-se em vista a natureza e a
finalidade do negócio.
Várias
julgados confirmam o disposto acima, entre eles, o Tribunal de Justiça do Rio
de Janeiro, em 2007, aplicou o artigo 413 do Código Civil às relações
locatícias, assim declarando:
Cláusula penal. Multa contratual.
Locação. Redução. Possibilidade. Código Civil, art. 413. Ordem Pública.
Disposição que afasta sua incidência. Invalidade e ineficácia. Autonomia da
vontade. Limites: 1. O princípio da autonomia da vontade
sempre encontrou limites nos bons costumes e na ordem pública. 2. A norma
contida no art. 413 do Código Civil combinada com o art. 4° da Lei 8.245/91,
dirigida apenas ao juiz, tem a finalidade de permitir um equilíbrio entre as
conseqüências da mora e a respectiva pena e de evitar um enriquecimento sem
causa de uma das partes, impondo, no caso concreto, aos réus uma obrigação
excessivamente onerosa. 3. Essa norma é de ordem pública e, por isso, a sua
incidência não se afasta pela vontade das partes. 4. Assim, a disposição
contratual que afasta a incidência dessa norma de ordem pública é inválida e
ineficaz. 5. Considerados estes aspectos e observadas as particularidades de
cada caso concreto, ao juiz é lícito reduzir proporcionalmente a multa
moratória ou compensatória (TJRJ, APC 2007.001.54593, 14ª CC, rel. Des. Cleber
Ghelfenstein, j. 31.10.2007)
Se
por um lado a cobrança da multa é garantida em lei, por outro a proporcionalidade
na aplicação desta também o é. Devendo o locador usar a proporcionalidade em
caso de rescisão antecipada para não infringir o disposto na lei.
E caso
o locador assim não proceda, recomenda-se ao locatário que devolva as chaves do
imóvel e imediatamente entre na justiça questionando a multa e a forma de
aplicação. Apresentando os valores que entende como devido.
Vale
lembrar, que em regra, um contrato de locação, é um contrato de adesão, ou
seja, ao locatário cabe apenas concordar com as cláusulas dispostas, e,
portanto, a lei autoriza sua discussão na via judicial, evitando, assim, o
enriquecimento ilícito de uma das partes.
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